“- Não sei se lhe digo o que trago em mim…
- Além do corpo?
- Sim, além deste.”
(fragmento)
Nunca quis de ti mais do que isso: O teu ouvido e teu corpo.
O ouvido para o fim, o corpo para o começo. Mas definhamos da tarefa, que se tarefa foi, só o foi enquanto miséria das tarefas. Das duas coisas que procurei em ti, tive em excesso uma delas, o ouvido. Ouviste-me quando deveria. Quando queria e quando não queria.
E quando eu não queria que me ouvisses, deverias não correr de mim, certamente não, mas achegar-se junto ao meu corpo e pedir-me silêncio, Dizer que os próximos minutos não precisarão de transcrição em diálogo, pois diálogo não haverá. Não haverá diálogo que possa ser lido, mas apenas uma tênue linguagem do inescapável.
Depois de tudo passado, mais ou menos embaçado, à nossa frente, chegamos ao fim.
Agora que preciso que me ouças, tu dormes. Nem é preciso tocar-lhe para saber que teu espírito repousa longe desse infecto lugar. Neste pequeno lugarejo, o que sobra e me calha é deixar-te nua, ai, e sair a ver se algo me cai como ouvidos.
A imagem obliqua e difusa de um copo dando caminho a um pequeno iceberg que desliza em todas as direções, conforme o impulso que lhe dou, fará às vezes de estar aqui a me ouvir. Volto ao mezanino a escrever o que me vem.